Desenvolvimento Nordestino

com Responsabilidade Social e Ambiental

Solidariedade social rompe a aridez no sertão da Bahia

Posted by Mercedes em setembro 23, 2007

21/09/2007 – 01h09

Por Mario Osava, enviado especial

Pintadas, Bahia, 21/09/2007 – Dói pensar que o aquecimento global agravará ainda mais a escassez de chuvas no interior semi-árido do Nordeste brasileiro, reagiu Luiz Tomacheski, surpreso diante da seca já presente na paisagem de arbustos retorcidos e gramíneas ralas. Tomacheski, presidente da Fundação Rureco de desenvolvimento rural no Estado do Paraná, foi o único procedente dessa região do Brasil entre as duas dezenas de ativistas, técnicos e camponeses que visitara há alguns dias o município de Pintadas, na Bahia, para conhecer um projeto local de adaptação à mudança climática e intercâmbio de idéias.

Acostumado a um clima chuvoso, de secas apenas ocasionais, “apesar de mais freqüentes ultimamente”, Tomacheski sentiu mais do que outros o impacto do solo árido e pedregoso. Mas, também se surpreendeu diante da forte organização comunitária dos moradores, animados para enfrentar os desafios “sentindo-se donos de seu destino”. Pintadas, pequeno município de 11 mil habitantes no interior baiano, foi escolhido pela rede internacional SulSulNorte e outras quatro organizações brasileiras e italianas para desenvolver junto com a prefeitura um projeto de adaptação à mudança climática, produzindo alimentos com irrigação por gotejamento ou pela técnica de hidroponia.

O objetivo é testar uma tecnologia aplicável no nordeste semi-árido, a região mais pobre do Brasil e que sofrerá muito com o aquecimento global, segundo os especialistas. Sua denominação é Projeto Pintadas Solar, e estimula o uso dessa fonte de energia ou a bioenergia, contribuindo, dessa maneira, também para minimizar o efeito estufa, ao evitar o uso de combustíveis fósseis. A ênfase é a pequena agricultura irrigada, porque se trata de ampliar a produção para a segurança alimentar em uma região “onde a água he a principal vulnerabilidade”, e que se acentuará com a mudança climática, explicou Débora Kligerman, engenheira sanitária e coordenadora do projeto pela SulSulNorte.

Um estudo feito em 2004 comprovou que 80% das hortaliças e frutas consumidas em Pintadas procedem de fora do município, destacou Nereide Segala, uma ex-freira de 49 anos hoje gestora do Projeto e assessora de economia solidária na Secretaria Municipal de Agricultura e Desenvolvimento Econômico. Esse fato, mais a pobreza rural e a liderança política baseada na comunidade organizada levaram à escolha do município como sede do projeto-piloto, visitado no final de agosto por ativistas, técnicos e camponeses de outras partes do Brasil. Além disso, trata-se de gerar fontes de renda locais. Todos os anos, cerca de três mil pessoas deixam Pintadas por alguns meses para colher cana-de-açúcar em São Paulo. O próprio prefeito da cidade, Valcyr Almeida rios, já viveu 10 anos em terras paulistas trabalhando em uma usina de açúcar e no Serviço Pastoral do Migrante, da Igreja Católica.

Gota a gota

O Pintadas Solar adotou o sistema de gotejamento como a forma mais eficiente de irrigação com baixo consumo de água, em um município que não dispõe de um rio perene. Mas, nas últimas décadas fez um esforço para construir novas represas, que já somam mais de 60. Inicialmente, optou-se por placas voltaicas para gerar a energia necessária para bombear a água até depósitos elevados, de onde saem os tubos de irrigação. Foi o que fez Florisvaldo Guimarães, um jovem agricultor que acumulou conhecimentos para se tornar assessor técnico do projeto e cultiva milho, mandioca, feijão, alface e outras hortaliças em uma parte da fazenda de sua mãe.

O rapaz instalou o sistema que bombeia água de uma pequena represa até sua horta, para fazer demonstrações a outros agricultores e experiências com diferentes cultivos. Além disso, se converteu no maior produtor de manga e jabuticaba do município e aproveita resíduos agrícolas como alimento para o gado, por exemplo. Armazenar forragem é vital para manter a produção leiteira de suas seis vacas, que chegam a dar 60 litros por dia quando a pastagem se recupera durante os poucos meses de chuvas, mas, caindo para 15 ou 16 litros na época de estiagem, explicou.

“Estou contente porque Florisvaldo ficou, assim posso continuar vivendo na fazenda”, comemora sua mãe, Laura Mercês Guimarães, de 68 anos, agradecendo pela vocação agrícola de seu filho e pelas técnicas capazes de tornarem a terra mais produtiva. O seis filhos foram viver em Pintadas e outras cidades distantes. O conjunto de bomba, cisterna e tubos para regar hortas de até um hectare pode ser adquirido por cerca de R$ 3.700,00, ou menos, se algumas famílias se associarem ao redor de uma mesma represa.

Outras quatro famílias se beneficiam do projeto iniciado no ano passado e que deve produzir suas primeiras conclusões em março próximo. Também cultivam hortas ao redor de uma represa maior, perto do povoado de Raspador. A bomba nesse caso consome óleo diesel. “As placas voltaicas pode ser roubadas, há pouco tempo roubaram as de uma escola próxima”, justificou Antonio de Brito, um dos produtores e entusiasta do projeto. “Antes levava horas para regar, indo e vindo até a represa, agora, basta ativar o sistema por 30 minutos”, afirmou.

Uma idéia do projeto para o futuro é produzir biodiesel e usá-lo nas bombas, mas Valter Almeida, outro produtor, espera uma solução energética mais rápida, como a chegada da rede pública de eletricidade até sua casa no próximo ano. Sua mulher, Elisangela, acredita que o projeto lhes assegura um futuro melhor, mas no começo não havia muito entusiasmo entre os moradores. “Vão secar o açude por anda”, criticavam, mas hoje se interessam em seguir o exemplo dos pioneiros, contou. Para as famílias de agricultores que não têm acesso às represas, o projeto prevê o desenvolvimento da hidroponia, com a coleta e armazenamento de água de chuva. Será uma produção orgânica, a “organoponia”, segundo Guimarães.

Comunidade solidária

A metodologia do Pintadas Solar é “construir o conhecimento junto com os agricultores familiares”, e não impor-lhes a assistência técnica de fora, explicou a gestora do projeto. Aos envolvidos foram apresentadas experiências semelhantes em outras terras, uma forma importante de aprendizagem camponesa. A intensificação do intercâmbio e visitas a outros projetos, especialmente de agro-ecologia e energias renováveis, em Estados do nordeste como Paraíba e Pernambuco foi uma das necessidades apontadas no encontro de ativistas da agricultura familiar sustentável em Pintadas, realizado nos dois últimos dias de agosto.

É recomendável diversificar e integrar várias atividades, como fruticultura e pequena pecuária à horticultura em um sistema de rotação, para garantir a sustentabilidade da produção em cada unidade, sem esgotar nem salinizar o solo, destacaram alguns visitantes. “Estamos nesse caminho” com a recuperação da pequena agricultura, superando o domínio da pecuária extensiva que determinou a devastação da caatinga (floresta branca, em língua indígena), a vegetação desta zona semi-árida, afirmou Guimarães.

Qualquer projeto em Pintadas conta com um fator de êxito, o grande capital social expresso em fortes movimentos que ser articulam em uma rede de 11 entidades locais, como associações de mulheres, de jovens e apicultores; cooperativas de crédito e de agroindústria. A Igreja Católica, com suas comunidades eclesiásticas de base, esteve na origem desse processo há três décadas. A prefeitura é uma parte dessa comunidade. “O povo organizado dirige este município”, afirmou o secretário de Agricultura e Desenvolvimento Econômico, Bernival Epifanio, com trajetória como dirigente sindical. Por isso, se tem como certo que a gestão baseada no movimento social continuará com qualquer governante.

Desde 1996, o município é governado pelo Partido dos Trabalhadores, produto dessa organização e mobilização comunitária, que acumula conquistas. Praticamente a totalidade dos mais de 1.600 domicílios rurais, por exemplo, contam com cisternas para armazenar água da chuva, um elemento vital para a convivência com o clima semi-árido e com as futuras mudanças climáticas. O município também conta com apoio de organizações nacionais e internacionais em seus projetos sociais. As brasileiras Rede de Desenvolvimento Humano e Cemina (Comunicação, Educação e Informação em Gênero) e as italianas AmbienteItália e Fundação Cariplo Apóiam o Pintadas Solar junto com a rede SulSulNorte.

A solidariedade construída nesse processo, no qual os “beneficiários de projetos também são seus autores”, é o motor do desenvolvimento local, concluiu Nereide Segala, a ex-freira hoje com quatro filhos, que vive em Pintadas há 20 anos e que se transformou em ativista social e pequena produtora agropecuária. Segala é uma das seis religiosas católicas que deixaram o Estado de Santa Catarina nos anos 70 e 80 para ajudar a transformar Pintadas em uma comunidade organizada que pode abrir caminho para uma convivência melhor com as secas presentes e futuras.

(Envolverde/ IPS)

Uma resposta to “Solidariedade social rompe a aridez no sertão da Bahia”

  1. cleidiano gomes sampaio said

    bom eu sou cleidiano moro em vinhedo sp,tenho parentes nessa regiao de pintadas fui la em maio de 2007 e tive o previlegio de ver este projeto no povoado de raspador perto de pintadase em u
    ma fasendinha de um primo meu, gostei muito do projeto e tenho certeza que ira dar certo. pesso que continuen ajudando estas pessoas ,pois elas precisam muito de ajuda ,pois elas tem muita força de vontade ,muito obrigado pelo espasso

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