Desenvolvimento Nordestino

com Responsabilidade Social e Ambiental

A hora e a vez do bode

Posted by Desenvolvimento Nordestino em setembro 3, 2007

Copiado de:  http://epoca.globo.com/edic/19990726/soci9.htm

GASTRONOMIA

A hora e a vez do bode

Fonte de nutrientes e lucros, a carne dos caprinos derruba preconceitos
e conquista paladares refinados

rancisco e Adinês Marote, há quatro anos residentes em Petrolina, no sertão de Pernambuco, encontraram uma forma de matar a saudade dos invernos de São Paulo. Nesta época do ano, a brisa do semi-árido já é suficiente para o casal abrir uma garrafa de bom vinho e esquentar-se diante de um réchaud de fondue. Não descuidam do toque regional: ao contrário da tradição européia, os espetos que manuseiam não retiram da panela pães envoltos em queijos derretidos, nacos de filé mignon ou frutas recobertas de chocolate. Chique é comer fondue de bode. A carne típica dos grotões nordestinos derruba preconceitos, chega aos restaurantes finos e desponta nas prateleiras dos supermercados.

Lançado pelo restaurante Umbu Cajá, o mais caro de Petrolina, o bode chique é sucesso comprovado. Receitas sofisticadas conferem novo status ao caprino. “Esta carne deve ser marinada em vinho, alho e ervas finas, durante 24 horas”, ensina Maristela Nascimento, 35 anos, proprietária da casa. Quando chegou a Petrolina, há três anos, Maristela levou meses até colocar na boca o primeiro pedaço de bode. Detestava o cheiro característico da carne. Hoje, mostra-se inconformada com o tempo perdido. “É uma iguaria”, diz.

Até pouco tempo, apenas políticos em campanha se aventuravam numa buchada de bode. Elogiavam o prato, mas tinham fome de votos. Agora, o sacrifício eleitoreiro perdeu significado: não é favor comer bode. Come quem quer e sabe o que é bom. Na Pizzaria Punto, à beira do Rio São Francisco, em Petrolina, há dois anos e meio a pizza de bode figura entre as mais pedidas. O churrasco, então, é recordista. Tornou-se a maior atração do bodódromo, no mesmo município, onde 20 bares disputam os melhores grelhados. A rotina é a mesma, todos os dias: a partir das 5 horas da manhã, a carne é retalhada em mantas sem ossos, num espetáculo ao ar livre animado por um batalhão de açougueiros. Chegam a ganhar R$ 2.800 por mês, cada um, pelo serviço. É um salário e tanto. “O animal precisa ser castrado”, destaca João da Cunha, 45 anos, dono da maior casa do bodódromo. “Só ele tem a carne macia. O garanhão é arisco, musculoso e tem carne dura.” Cunha vende 750 quilos do assado por semana. Serve-o acompanhado de feijão-tropeiro, arroz, mandioca e molho vinagrete.

O rebanho nacional de caprinos é de 18 milhões de cabeças. Enquanto no Brasil o consumo médio anual é de meio quilo por pessoa, na região de Petrolina, a quantidade é 20 vezes maior. Para expandir o consumo, fazendeiros estão se organizando. Em Feira de Santana, na Bahia, a empresa Baby Bode montou uma central com mais de 2 mil produtores. Atualmente, 23 distribuidores levam a carne, em cortes especiais, para açougues e redes de supermercados do país. A empresa prepara-se para abrir franquias.

Há quem diga que o bode está tomando o lugar da picanha. A arquiteta Diomari Diniz, 30 anos, e as advogadas Anassuerda Cavalcanti, 27, e Juci Barbosa, 27, costumam degustá-lo como petisco em happy hours no Recife. O ponto de encontro é o restaurante Entre Amigos, no bairro de Boa Viagem. “Com vodca, é a melhor pedida”, recomenda Anassuerda. A casa tem o serviço disk-bode para entrega em domicílio e do rol dos clientes assíduos constam o músico Naná Vasconcelos e a cantora Ivete Sangalo.

Do bode se come tudo. Na panela de uma buchada, há que se ter o pulmão, o fígado, o coração, a língua, a garganta, as patas, a cabeça e os intestinos do bicho. “Meu pai dizia que comer o ‘juízo’ do bode deixa a pessoa burra”, conta o engenheiro agrônomo José Nilton Moreira, referindo-se aos miolos. “Nem penso nisso. É uma das partes mais saborosas.” Nutricionistas afirmam que esta é a mais saudável das carnes. A indústria lança derivados. Entre eles a salsicha, o hambúrguer, o presunto e a lingüiça. Em Jaguarari, na Bahia, é produzido o pernil defumado, para ser servido em lascas finíssimas. Não será exagero prever: com tanta criatividade, o carpaccio e o sushi de bode em breve deverão chegar às mesas. n

      Sérgio Adeodato, de Petrolina

Fome de candidato
Com ou sem desenvoltura, políticos se submetem à prova do bode

O sertanejo é um sábio: acostumado a driblar vicissitudes, come bode para matar a fome e serve-o aos políticos. Com essa prática singela, sabe quem está (ou não) sintonizado com as agruras do sertão nordestino. Em 1994, Fernando Henrique, o sociólogo-candidato, enfrentou uma buchada com surpreendente altivez. Elogiou o prato e lembrou que, em Paris, tripas dão origem a finas iguarias. O senador Carlos Wilson (PSDB-PE) despista o eleitorado. “Tomei vacina hoje, não posso comer bode”, disse certa vez em Arcoverde, município pernambucano. O senador conterrâneo Roberto Freire (PPS-PE) apela para a sinceridade: detesta caprinos. Dissimulado,Tasso Jereissati, governador do Ceará, evita almoços pelo interior do Estado, pelo mesmo motivo. É contrariado pelo governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos. “Comer bode é questão de patriotismo”, proclama.

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