Desenvolvimento Nordestino

com Responsabilidade Social e Ambiental

BARRAGINHAS: parceiras da vida

Posted by Mercedes em julho 11, 2007

VEJA A ÍNTEGRA DA REPORTAGEM DO GLOBO RURAL EM TEXTO:
 

Reportagem de O sucesso das barraginhas 20.05.2007
O Vale do Jequitinhonha (MG) é uma das regiões do Brasil que mais sofrem com a seca. E não chove pouco por lá, não. Só que a água que cai vai embora, escorre rápido, causando erosão e entupindo os rios. Os repórteres César Dassie e Jorge dos Santos viajaram pelo vale para conhecer as barraginhas. Uma técnica simples e muito barata para conservar a água da chuva que está transformando a realidade em muitas propriedades da região. Onde antes a produção minguava, hoje ela brota com vigor.O rio se estende por mais de 900 quilômetros. E às suas margens uma das maiores carências da população é, justamente, a falta de água. É assim no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, um pedaço do semi-árido brasileiro.Um lugar sofrido, pobre, com um dos menores índices de desenvolvimento humano do Brasil. Um lugar onde seu povo se alegra quando o rio engrossa com a água da chuva.Só que a água barrenta do rio é sinal de desperdício. Em todo o Vale do Jequitinhonha chove cerca de 800 milímetros por ano. Com essa quantidade de água o pessoal da região costuma dizer que, ao contrário do que muita gente pensa, aqui não chove pouco. Chove o suficiente, só que sem nenhuma regularidade. Aí, a enxurrada corre solta. E vai formando valas, carrega terra, pedra. No fim tudo vai descer morro abaixo, entupindo o leito dos rios.Tanta água assim causa estranheza até para quem transforma o sofrimento em melodia. “São Pedro quebrou o protocolo e colaborou com a gente. Obrigado, São Pedro!” O compositor Betinho Replay mora em Minas Novas (MG), município que preserva sua história nos casarões antigos da época em que o garimpo gerava a principal riqueza por lá.Mais do que nunca o rio Jequitinhonha dá sinais de que a exploração intensiva de minérios e o desmatamento indiscriminado transformaram a paisagem não só das suas margens, mas também do seu leito. Onde antes havia muita água hoje só se vê bancos de areia.Osmano Celestino de Almeida: Bom dia.
Globo Rural: Bom dia!
Osmano: O senhor mora aqui?
Globo Rural: O senhor mora aqui há quanto tempo?
Osmano: Tem uns 50 anos.
Globo Rural: E esse rio aqui já esteve mais cheio?
Osmano: Já.
Globo Rural: E como era antes?
Osmano: Antes ele passava lá naquele barranco lá em cima. Agora a água tá pouca.Mesmo dessa terra maltratada sai o sustento de muita gente da região e que faz movimentar as ruas da cidade. Todo sábado de manhã o ponto mais agitado de Minas Novas é uma ruazinha. Os agricultores trazem seus produtos e a população em peso vai para lá. “Eu trouxe alface, trouxe couve-mostarda, cebolinha e quiabo. Tudo que traz não sobra nenhuma folha. Eu consigo tirar R$ 200 por semana. Uai! Para esse lugar fraco, nosso aqui, é uma boa quantia”, diz a agricultora Ivonete de Oliveira.E graças aos mini-açudes que garantem a produção de metade de tudo o que é vendido na feirinha da cidade. São as chamadas barraginhas, que retêm e armazenam a água da chuva. A técnica é milenar, mas foi o agrônomo Luciano Cordoval, da Embrapa Milho e Sorgo, quem aprimorou seu uso para a realidade do cerrado e do semi-árido brasileiro. “Muita gente já fez isso há 30, 50 anos atrás sem estar percebendo que estava fazendo esse sistema. Tem muito produtor que fez isso isoladamente. A função nossa é segurar a água da chuva onde ela cai, na propriedade.”E armazenando a água das chuvas nos sítios e fazendas a barraginha melhora o rendimento das lavouras e evita o assoreamento. O tamanho de cada uma delas varia de acordo com a região. No semi-árido, por exemplo, a orientação é que o buraco tenha em torno de 18 metros de diâmetro e dois de profundidade. A contenção faz a água infiltrar lentamente no solo, o que beneficia a vegetação em volta e abastece o lençol freático. “Choveu ontem dez horas da noite, uma chuva até intensa. Escorreu enxurrada e encheu. O nível esteve alto. Numas oito a dez horas ela já baixou quatro centímetros. Em dois, três dias, ela chega a baixar 60 centímetros. Quanto mais rápido baixar, mais efetiva ela é, porque pode vir outra chuva. Ela tem que estar esvaziando para poder colher mais chuva”, diz Cordoval

Olhando de cima uma propriedade-modelo depois das construções das barraginhas ficaria como visto em uma maquete. “E com isso aqui essas lavouras não sofrem o veranico porque a umidade está irrigando de baixo para cima.” Dr. Luciano qual é a melhor área para se plantar numa propriedade como essa? “Nesse modelo clássico aqui, nós temos nas barraginhas superiores pomares, tipo manga, abacateiro com raiz profunda, porque o lençol está mais profundo aqui. Nas mais intermediárias nós temos canaviais que é o sistema radicular já mediano. Lá na baixada, nós temos as culturas de sistema radicular raso, que é o feijão, o arroz, o milho, o sorgo, que são as culturas de subsistência das famílias e dos pequenos animais. E a umidade que ela segura aqui passa para o vizinho também. “Passa para o córrego, passa para o vizinho, passa. Aqui não tem cerca, não tem fronteira.”

Dez anos depois do início do projeto, 80 mil barraginhas estão espalhadas por mais de 300 municípios. Minas Novas (MG) é o que concentra a maior quantidade delas: 2.500, segundo os cálculos da Embrapa.

Isso foi possível com a parceria firmada entre a prefeitura, a Igreja Católica e a Embrapa, que conseguiu captar recursos da Itália e de empresas privadas brasileiras. São acordos assim que bancam os custos das barraginhas e o agricultor não paga nada.

Em Minas Novas, quase todo trabalho de escavação é feito pelo “barrageiro” Domingos Ramos Borges, que calcula já ter “cavocado” mais de dois mil mini-açudes. “Eu fico muito feliz, que é uma coisa que eu fiz, voltei vi o resultado. Eu trouxe a água que é o pessoal precisa.”

A barraginha que Domingos está fazendo hoje é a primeira nas terras do seu José Bonifácio, conhecido por aqui como Zé Baiano. E justamente onde a escavadeira trabalha ele plantou 4.500 pés de melancia, mas na hora de colher: “Se tivesse produzido normal dava uns dez mil frutos, por aí. Colhi uns 50, porque o sol castigou muito. Elas não cresceram, entortaram e aí não produziu nada. Se já tivesse uma barraginha sobrevivia bastante, refrescava a terra e a gente podia molhar também uma parte.”

Em outro sítio a umidade da barraginha ajudou para que não falhasse nenhum pé de feijão e Seu Francisco Nunes se orgulha do vigor da lavoura. “Do jeito que está aqui não tem como não dar feijão. Se Deus quiser vai dar muito feijão. Antes da barraginha ninguém nem num animava plantar. Não animava plantar porque, plantava não colhia, de tão seco. Graças a Deus agora, com a ajuda das barraginha, vou falar para você. A água que nós repartia para a criação e não dava nem para lavar roupa, hoje está sobrando.”

Também entusiasmada está a agricultora Ivonete de Oliveira, nossa entrevistada na feira da cidade. Lembra dela? Para manter sua horta bonita ela aproveita a obra escavada no sítio da sogra. “A barraginha da minha sogra fica bem próxima de casa e a gente percebeu que a umidade desce na terra. Eu podia molhar menos que a horta não sentia. Antes eu regava duas vezes por dia. Depois com a barraginha eu rego de três em três dias, conforme as verduras.”

O marido da Ivonete, Josias Rodrigues de Oliveira, trabalha na cidade como montador de móveis. Ele conta que trabalhando na horta ela ganha mais que ele, chega a tirar o dobro.

No Vale do Jequitinhonha, cada barraginha é capaz de armazenar cerca de mil metros cúbicos de água por ano, o suficiente para abastecer cem caminhões-pipa. O sítio de nove hectares do seu José Valter, presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de Minas Novas, está em plena recuperação. Do alto do morro a primeira de uma série de oito barraginhas ficou bem cheia com a chuva que caiu durante a noite. “A gente tá aí com uns três metros de água, de profundidade, na barragem. Pode até ter mais.”

O córrego Manoel Luís, que corta o sítio, ficou oito anos sem água. Era dado como morto. Por todo esse tempo ele deixou de abastecer o rio Fanado, que desemboca no rio Araçuaí, que por sua vez corre para o Jequitinhonha. Para imaginar o que isso significa, multiplique pelos milhares de córregos e riachos que já deixaram de mandar água para toda a bacia do vale Jequitinhonha. Uma área que se estende por mais de sete milhões de hectares. “Vi o córrego morrer, não vou dizer que eu não tenho culpa porque eu tenho um pouquinho, eu andei desmatando um pouco aqui por perto também. Quando eu vi que o córrego ia morrer, aí eu falei: e agora? Aonde nós vamos parar? É muito bom ter água na propriedade. Eu antes até pensava em mudar daqui, sair daqui dessa terra e caçar outra terra, porque eu não ia conseguir viver aqui com a minha família sem água. E se eu viver cem anos de idade eu quero viver cem anos fazendo esse trabalho. Do lado do Manoel Luís, do lado dos outros córregos do município se eu tiver condições eu quero ver outros córregos do município correndo igual esse aqui.”

Água correndo é sinal de fartura. De milho, cana e limão. Foi o que encontramos na parte mais baixa do sítio do seu José Valter. “A gente tem a produção da laranja. A mangueira, temos a pequena horta, a bananeira que tá ali na frente. Antes a gente, como diz, pensava o seguinte: aquilo que Deus via que tinha condição de chegar até a gente com o próprio sereno da noite e essas coisas, né? E a própria umidade só das chuvas a gente colhia. Mas esperança, assim, que ia produzir a gente não tinha. Agora melhorou.”

E melhorou, também, a vida de outro agricultor de Minas Novas. Seu José Brandão não esquece os apuros que passou por aqui. “Passei muita dificuldade, que eu via a hora de eu passar sede. Até a gente sentir vontade de tomar um banho e não tomou o banho naquela hora certa porque não tinha água. A água era pouca. Mas de dois anos para cá, a coisa melhorou tanto para nós, a respeito das barraginhas, que tá inté chovendo. Que não existia aqui nem chuva. A gente planta um pé de abóbora, ele sai. A gente planta uma cova de batata, ela sai. A gente planta feijão e ele sai com mais conforto.”

A barraginha que faz seu Brandão falar com tanto entusiasmo foi construída há três anos. “A criação bebe água. Menino chega e toma banho. Essa água está dando assistência às plantas lá embaixo que é aquele quintal que o senhor está vendo lá.” No quintal, a pequena plantação de milho deu espigas de encher os olhos. “Essa espiga de milho ela deu mais forte aqui por causa da assistência da água. Ficou 40 dias sem chover. Oh! Aqui para ver o grão dela, oh. Deu um milhozinho até bom, que aqui é o pão de cada dia. Depois lá embaixo eu vou tirar uma espiga de onde ela deu sem umidade e mostrar para você ela deu chocha.”

Não mais do que cem metros abaixo a plantação sofreu com a estiagem que atingiu a região. “Vou abrir e mostrar para vocês a diferença que tem, oh. Foi plantado na mesma época, no mesmo dia, a mesma terra. Deu 40 e tantos dias de sol. Nem granou. Vê a diferença de uma espiga para a outra. Daqui a gente tira a farinha, a gente tira o fubá, a gente faz o biscoito de fubá, faz o bolo. A barragem faz chover, a barragem faz o fruto. Sem água ninguém vive. Água é vida. Aqui é o pão de cada dia. A barragem dá resultado.”

Esse resultado mudou a vida de gente como seu Brandão, seu Zé Valter, Ivonete, Zé Baiano, seu Francisco… E do próprio doutor Luciano, que até dá pinta de celebridade por aqui. Um reconhecimento pelo esforço de barrar a água da chuva e para que a feira da cidade desfrute do colorido do campo. “Tem hora que eu até arrepio de ver tudo isso. Eu não consigo transformar isso em palavras de tão contente. Eu estou estourando de contentamento. Eu estou enlouquecido aqui.”

Uma barraginha custa, em média, R$ 100. O projeto sobrevive das parcerias que firma com instituições públicas e privadas, e das doações que recebe. Mas para dar certo não basta só dinheiro, é fundamental também o envolvimento da comunidade.

Fonte: http://globoruraltv.globo.com/GRural/0,27062,LTO0-4370-282176,00.html

Também disponível no Google Video para download.

* CONHEÇA O BLOG DO PROJETO BARRAGINHAS: http://barraginhas.multiply.com

Uma resposta to “BARRAGINHAS: parceiras da vida”

  1. Este progeto mostra como é possivel
    mudar o senário agro social do nosso
    brasil, quando as instuições politicas
    juntamente como organizações da comunicação;Imbuidas de espiríto patriótico como a globo enganjam nesse
    objetivo esclarecedor de como o brasil
    é o pais mais viavél do mundo

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